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Gambito: aceitar ou recusar? Uma regra no lugar de uma lista

No segundo lance o adversário oferece o peão f. Peão de graça, você toma. Nos dez lances seguintes você só tira água do barco: o cavalo foge dos peões, um bispo mira f7, a dama entra por h5. Depois da partida o motor diz que você estava melhor. Mesmo assim você perdeu.

Isso é um gambito: um peão, às vezes uma peça, entregue em troca de tempo. A pergunta “gambito: aceitar ou recusar?” costuma ser respondida com uma lista: este toma, aquele não, aqui toma e devolve no quinto lance. Ninguém lembra da lista. Abaixo vai uma regra que funciona contra qualquer gambito e os três gambitos que mais aparecem abaixo de 1600.

O motor segura a posição. Você não.

O Stockfish quase sempre vota em tomar. No Gambito do Rei, depois de 1.e4 e5 2.f4 exf4, ele dá às pretas cerca de +0,6: peão a mais, compensação insuficiente. Agora abra a base do lichess para jogadores de 1200–1800. Depois de 2…exf4 (quase um em cada dois toma, 22 milhões de partidas) as pretas vencem 43% e as brancas, 54%.

Peão a mais, avaliação melhor, resultado pior. A diferença tem nome: pânico. As brancas ganham a coluna f aberta, desenvolvimento rápido e pressão em f7, enquanto as pretas gastam lances segurando o material. Abaixo de 1600 o gambito não é vencido pela posição. É vencido por dez lances sob pressão, em que basta errar uma vez.

A regra: dois lances de desenvolvimento seguidos

Antes de capturar, pergunte: se eu tomar, consigo fazer dois lances de desenvolvimento seguidos sem que nenhuma peça seja expulsa com ganho de tempo? Lance de desenvolvimento é cavalo ou bispo saindo da casa inicial para uma casa útil. Mexer a mesma peça duas vezes, lance de peão para segurar material, recuo: nada disso conta.

Se a resposta for sim, tome e desenvolva; o peão a mais é seu. Se for não, não tome, ou devolva o peão você mesmo enquanto isso não custa nada, e jogue uma posição normal. Abaixo de 1600 uma posição igual e sem dívidas rende mais pontos do que um peão a mais sob ataque. Vamos testar a regra nos três gambitos que mais aparecem.

Gambito do Rei: tome, mas não com o cavalo em f6

1.e4 e5 2.f4 exf4 3.Cf3. O lance mais natural, 3…Cf6, reprova na regra: 4.e5, e o cavalo se mexe pela segunda vez sem desenvolver nada.

Gambito do Rei depois de 3…Cf6: o peão de e4 avança para e5 e expulsa o cavalo
Depois de 3…Cf6? as brancas jogam 4.e5 e o cavalo gasta o segundo lance recuando. Entre jogadores de 1200–1800 as pretas vencem só 40% depois de 3…Cf6. Depois de 3…Be7, com a ideia de Cf6, quase 50%.

3…Be7 passa: o bispo saiu, Cf6 vem em seguida, e não sobra nada para expulsá-lo. Dez pontos percentuais só pela ordem de dois lances. O Gambito do Rei numa frase: tomou em f4, tire o bispo antes do cavalo; sem vontade de pensar, responda 2…d5 e deixe o peão em paz. Depois de 2…d5 o placar nesse nível é empate técnico: pretas 49%, brancas 48%.

Gambito Evans: não tome

1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Bc4 Bc5 4.b4. Setenta por cento dos jogadores pegam o peão de b4. Confira a regra: depois de 4…Bxb4 5.c3 o bispo é atacado e se mexe pela segunda vez, e assim que recua chega 6.d4, mais um tempo para as brancas.

Gambito Evans depois de 5.c3: o peão ataca o bispo em b4, e depois vem d4
Depois de 4…Bxb4 5.c3 o bispo é atacado pela segunda vez seguida, e d4 vem em seguida com novo ganho de tempo. Não há tempo para desenvolver: as pretas continuam gastando lances com um bispo só.

Os números concordam com a regra: quem toma vence 43%, quem recusa com 4…Bb6 vence 50%. Se você tomou mesmo assim, recue para a5 ou e7, nunca para c5: de lá o d4 expulsa o bispo de novo e o resultado cai para 40%. O Evans numa frase: contra 4.b4 jogue 4…Bb6 e siga desenvolvendo.

Gambito Morra: recuse com um lance

1.e4 c5 2.d4 cxd4 3.c3. Setenta e dois por cento tomam: 3…dxc3 4.Cxc3. O cavalo sai para c6 fácil, mas não há onde fazer o segundo lance de desenvolvimento: o bispo de f8 precisa antes de um lance de peão, e isso não é desenvolvimento. A regra diz não.

Gambito Morra depois de 4.Cxc3: o cavalo branco já está em jogo, com Cf3 e Bc4 a seguir
Depois de 4.Cxc3 as brancas já têm uma peça em jogo, Cf3 e Bc4 vêm a seguir, e as colunas c e d estão abertas para as torres. Cada lance das brancas vem com ameaça; cada lance das pretas é defesa.

Depois de tomar, as pretas vencem 45% nesse nível, e tentativas ativas como 4…e5 ou 4…d6 derrubam isso para 41–43%. Mais simples é nem entrar: 3…Cf6 ou 3…d5, e você está numa Siciliana c3 comum, sem dívida nenhuma. Ali as pretas marcam 49–51%. O Morra numa frase: contra 3.c3 jogue 3…Cf6 e não toque no peão.

Gambito é pergunta, não presente

Muitos gambitos são só armadilhas de abertura de roupa nova: um peão oferecido para você gastar lances guardando-o. Isso não é motivo para estudar a teoria de cada um: abaixo de 1600 linhas decoradas quase não se pagam, e a regra dos dois lances funciona até contra um gambito que você nunca viu. Se os gambitos chegam até você de pretas depois de 1.e4, é mais simples resolver a questão com uma única resposta a 1.e4 do que aprender um por um.

Uma última coisa: se você tomou e a regra disse sim, use os dois lances seguintes para desenvolver peças, não para escorar o peão com peões. Lances como g5 ou b5 só para manter o material são o jeito mais comum de devolver a iniciativa que o adversário estava comprando.

Os números deste artigo vêm da mesma fonte do painel “É assim que as pessoas jogam aqui” na tela de jogo do treinador. Caiu num gambito, e embaixo do tabuleiro você vê como jogadores do seu rating conduzem a posição e como ela termina para eles.

Gambito não é insulto nem presente. É a pergunta “você consegue se desenvolver?”, e a resposta tem de vir antes de tomar, não no décimo lance.

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